terça-feira, 4 de dezembro de 2012


Não achei imagem compatível com o texto, caso tenha sugestão, fique a vontade;
Sugiro a leitura do texto ouvindo esta música.



Fechou seus olhos com as mãos. Contemplou seu rosto sem rugas, jovial, de uma beleza efêmera. Não foram os traços simples, a tez suave e pura, os dentes brancos ou os olhos claros, porém, que o haviam conquistado. Isso ajudou, claro, mas se não existisse o seu riso frouxo, seu peito aberto, seu olhar para as questões humanas, nada disto teria o colocado naquela posição. Com um gesto delicado, passou os dedos por entre os cabelos castanhos, retirou a franja recém adquirida de seus olhos, colocando-a lateralmente. Os olhos percorriam cada parte, registrando em memória os traços ali dispostos. Depositou em seus lábios um beijo e a teve em seus braços.
Há quanto se conheciam? Era esta uma pergunta que os faziam perder algum tempo para que a pudessem responder – os olhos se encontravam e riam. Quem não os conhecesse, achariam tripudiantes, mas eles riam de sua própria condição. Fazia diferença? Eram íntimos de outras encarnações, arriscariam dizer.  E se fala de intimidade, não como o que resta ao público de si mesmos, mas o que resta do outro em si - conheciam um ao outro como se fossem eternos, frutos de uma mesma alma, compartilhada em dois corpos.
A última vez que puderam estar tão próximos havia acontecido há um mês, quando se despediam no aeroporto. Ele havia partido para um intercambio, enquanto ela continuava a vida no Brasil, prometendo a sua espera – não imaginavam que seria a vida assim. Na ocasião, as lágrimas foram acolhidas com cumplicidade, de ambas as partes. Quatro semanas... trinta dias... nada que um calendário não marcasse a contagem regressiva. Quando a última chamada para o voo soou, os dedos entrelaçados foram se despedindo lentamente, até que um último toque o rompeu. Os passos eram dados em direção ao embarque, mas os olhos continuavam ali, aos prantos.
Se o tempo não corresse e as horas tivessem feito de cúmplice a saudade, não haveria porque chorar. Se os planos fossem outros, se a necessidade de se separar não fosse grande, se o intercambio tivesse sido pensado em outro momento – uma lua de mel, por exemplo - talvez, e somente talvez, as coisas poderiam ter acontecido de outro modo.
O primeiro contato se deu no segundo dia após a chegada dele ao Canadá. Apesar do forte desejo de compartilhar com ela todos aqueles momentos e novidades, foi apenas no segundo dia que ele conseguiu se ajeitar e conectar-se ao mundo. A distancia os atordoava, a falta de contato, o calor suave de seus corpos, agora tão afastados. Os dedos tocavam a tela fria do notebook e de longe supriam a falta um do outro.
Os dias que seguiram eram relatados, discutidos, compartilhados. Mas havia algo posto entre eles que transcendia a distancia. Ele a observava e percebia, mesmo que ela negasse veementemente, que algo estava fora do lugar. As conexões diminuíram na segunda semana, e eram poucos os minutos em que se viam – havia sempre algo a fazer, um compromisso que não poderia ser desmarcado. Tornaram-se mais rarefeitas na terceira semana e quase não houve contato na quarta semana. Apesar da preocupação que o assolava, estariam juntos em poucas horas e poderiam conversar sobre o que estava acontecendo, pensou.
Foi ali, faltando apenas algumas horas para o seu retorno que ele recebeu uma ligação. No sono da noite, em que foi desconsiderado o fuso-horário, foi acordado pelo toque de seu celular. O acordar atrapalhado, o baque audível que o fez levantar. Do outro lado da linha, a mãe o preparava para o pior. Andou pela casa com as luzes ainda apagadas, caminhando em direção ao banheiro, onde lançou sobre o rosto alguma água fria. Se o baque inicial não fosse suficiente para acorda-lo, aquele seria suficiente para desperta-lo.
Acompanhou a noite passar pensando no que havia acontecido nos últimos meses. As idas dela ao médico sempre como exames de rotina, as marcas que apareceram ao corpo e que eram justificadas pelo seu modo apressado de caminhar e de acidentalmente se chocar as coisas. Pensou sobre as pistas deixadas e quão ingênuo tinha sido. As últimas horas de viagem foram apenas para rememorar os momentos, equilibrar os anseios, dúvidas e questionamento que surgiam em sua mente.
Antes que o dia amanhecesse já estava com as malas prontas. Despediu-se rapidamente dos amigos que o hospedaram neste período e partiu para o aeroporto. Após horas de espera, desembarcou no Brasil sabendo pela primeira vez que não seria recebido pelos braços de seu amor. Ao descer do avião, caminhando entre a multidão como um estranho qualquer, sem alguém que o esperasse do outro lado, sentiu o pulmão comprimido – o ar rarefeito. Não passou em casa, não trocou as roupas da viagem, não tomou o banho que retiraria de seu corpo o peso da viagem, partindo em direção ao hospital.
Lá chegando, encontrou na recepção as informações que lhe eram necessárias. Descobriu em que quarto se encontrava e que o estado de saúde dela se agravará nas últimas horas. O longo corredor dramatizava ainda mais a sua condição. Aproximou-se através de passos rápidos do quarto, afinal de contas, cada segundo era de extrema valia. O senso de urgência não permitiu, porém, que ele entrasse. Toda pressa da situação não o impulsionou a entrar, mesmo estando diante de uma porta sem chaves ou fechaduras. As pernas falharam ao seu comando, o coração desacelerou, dificultando a sua respiração, os olhos marejaram. Durante todas as últimas horas pensou sobre as pistas que tinha deixado de captar, as conversas que deixaram de ter, mas em nenhum momento pensou naquele instante, em como lidaria frente a frente com sua presença, nunca lidou com a possibilidade de sua ausência em uma vida planejada para dois. Um longo suspiro foi dado antes que desse o primeiro passo. Por mais que a angústia da perda o mantivesse congelado, a necessidade de vê-la se fez mais forte, de estar ao seu lado uma última vez para poder se despedir.
O ressentimento quanto ao segredo se dissipou assim que a viu. Ela, diante de toda sua dor e mudança, tentando mantê-lo seguro, protegido. Os olhos semicerrados pela medicação cruzaram com os dele. As palavras tentaram escapar dos lábios dela, mas a falta de força não a permitia. Ele indicou o silêncio, colocando o indicador sobre sua boca. Não acreditava ser possível ela ter escondido sua doença para não traga-lo a sua dor. Olhou-a novamente e não acreditou ser aquela a ultima vez que se veriam. Seria necessário confiar a sua memória os traços que agora se desenhavam em suas mãos. Aproximou-se do seu ouvido e disse adeus. As lágrimas brotaram. Era hora de se despedir, desta vez sem a certeza de um até logo. Afastou o rosto apenas para ouvir o chiado dos equipamentos a ela conectados.
Fechou seus olhos com as mãos. Contemplou seu rosto sem rugas, jovial, de uma beleza efêmera. Não foram os traços simples, a tez suave e pura, os dentes brancos ou os olhos claros, porém, que o haviam conquistado. Isso ajudou, claro, mas se não existisse o seu riso frouxo, seu peito aberto, seu olhar para as questões humanas, nada disto teria o colocado naquela posição. Com um gesto delicado, passou os dedos por entre os cabelos castanhos, retirou a franja recém-adquirida de seus olhos, colocando-a lateralmente. Os olhos percorriam cada parte, registrando em memória os traços ali dispostos. Depositou em seus lábios um beijo e a teve em seus braços pela última vez.




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